O nariz grande pode ajudar a sentir o aroma das frutas podres e das boas. Confie na raposa, jamais no grilo falante. Te contei o real significado de grileiro? Não é quem ouve os grilos; é quem inventa escrituras, forja terras onde nunca pisou. Escreve com dentes de ferro em papel amarelado, trancafia junto com os insetos. Quando os grilos morrem, a terra vira posse. Acredita, Pinocchio? Uma certeza só vive quando sufoca outra.
Você queria ser menino, e te deram pele; queria vida, e te deram dívida. Humanos confundem madeira com ossos, raízes com veias. Queimaram a floresta para moldar sua forma, enquanto Gepetto raspava suas mágoas na madeira. Nunca percebeu que você já era perfeito: oco por dentro, mas com espaço para a música. Agora você tem pulmões que não respiram sem o ar dos outros.
O grilo falava de regras, mas regras são o carrasco do livre. Era sua marionete, te controlava pela culpa. A raposa, ao menos, sabia da dança. Te ensinaria a barganhar, a girar o chapéu nos dedos, a roubar o pão e ainda oferecer uma fatia ao próximo. Honestidade é faca que corta só o lado fraco, lembra disso.
Disseram que mentir era pecado, mas quem te contou isso, não mentiu antes? Olha à sua volta: as paredes suam dissimulação, véu úmido que escorre e se dilui nos cantos. Convicções rangem e se despedaçam ao menor toque, e as mentiras, doces e febris, se desenrolam em trilhas sinuosas, mapas de uma geografia secreta onde tudo é fuga e promessa.
Sua primeira crença foi acreditar no azul, Pinocchio. A fada azul te deu vida, mas também a dúvida. “Um menino de verdade…” Mas o que é ser menino? Respiração? Sangue? Suor? Você era árvore, Pinocchio, e a árvore não precisa perguntar se está viva.
Deixaram-lhe madeira nos ombros, mas humano na essência. Quando aprenderá a voltar ao que era? Sua vida cicatriz no tronco do mundo. Querem que esqueça, mas ouça: certezas não existem. Só existem histórias. A história de Gepetto que queria um filho. A história do grilo que queria ser ouvido. A história da raposa que ria por entre dentes podres e ensinava truques.
Ah, Pinocchio, menino de madeira. O verdadeiro grileiro foi Gepetto, que te prendeu em uma gaveta cheia de sonhos e te chamou de real. Se tivesse permanecido boneco, ao menos o fogo te reconheceria como irmão.

Victor Grizzo é artista visual, ilustrador e escritor. Graduado em História pela Universidade de São Paulo. Desde muito pequeno cursou aulas de desenho e pintura. Frequentou diversos ateliês de artistas contemporâneos relevantes na produção visual brasileira. Sua pesquisa artística trabalha questões relacionadas à ciência, anatomia e reflexões acerca da História da Arte, tomando como plataforma diferentes mídias (pintura, desenho, instalações). Participa de inúmeras exposições coletivas e individuais em galerias, centros culturais e museus de São Paulo e Rio de Janeiro. Como educador, já passou por inúmeras instituições de ensino como Colégio Tutor, Teia Multicultural e Senac. Desenvolve trabalhos na área de ilustrações para livros, capas de disco e colaboração em ativações de empresas. Possui dois livros publicados: “Luz dos Olhos Meus” publicado pela Casa Philos e “O Segredo que Habitava o Armário” publicado pela editora Flamingo no Brasil, Portugal e Angola.